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  • Luís Henrique Franco

OSCAR 2020 - PARASITA: UMA INTENSA ANÁLISE DE UMA SOCIEDADE COM MUITOS LADOS



Uma coisa que o cinema nos condicionou ao longo de toda a sua existência é que, em toda história, existe o herói e existe o vilão, um lado bom e um lado mal, uma divisão obrigatória em dois pontos de vista, através da qual o filme nos faz acreditar em um lado em detrimento do outro, de acordo com o ponto de vista de seus produtores. Engolimos essa ideia de dois lados em conflito, um estando certo e o outro sendo o errado, e o aplicamos ao nosso dia-a-dia, nossas relações e nossas ideias, prezando pelo lado com o qual concordamos e, muitas vezes, não analisamos o que o outro lado está dizendo ou pensando, muito menos se existem mais lados a serem considerados nessa discussão.


Por causa dessa tradição, é surpreendente quando um filme como Parasita, escrito pelos sul-coreanos Bong Joon Ho e Jin Won Han e dirigido pelo primeiro, aparece para tentar quebrar esse ideal. Indicado a seis prêmios do Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Roteiro Original, o filme trabalha no aprofundamento das relações entre classes diferentes da sociedade e também nas relações entre patrão e funcionários e no abismo entre um e outro no mundo real.


Os protagonistas da trama são uma família de quatro membros: o pai, Ki-taek, a mãe, Chung-sook, o filho, Ki-woo e a filha, Ki-jung. Os quatro levam uma vida extremamente pobre e lutam diariamente para sobreviver, valendo-se de métodos questionáveis para realizar trabalhos e tirar de seus empregadores o máximo que conseguem por serviços que nem sempre são os mais bem feitos. No meio desse dia-a-dia, Ki-woo é chamado por um amigo para assumir as aulas dadas à filha de uma família rica na parte alta da cidade. Vendo uma enorme oportunidade nessa família extremamente ingênua, Ki-woo logo começa a traçar um plano para pôr toda a sua família dentro daquele núcleo de riqueza e extrair o máximo de seus empregadores.



Parasita logo de cara estabelece o essencial sobre seus protagonistas. Eles são golpistas que enganam aqueles ao seu redor para tirar o melhor proveito de cada situação e. Sem levantar a menor suspeita da família Park (os empregadores), eles vão se esgueirando para dentro da casa, assumindo posições como funcionários da casa e passando por cima dos antigos trabalhadores com truques e artimanhas extremamente bem-pensados. Ao mesmo tempo, o filme deixa claro que cada membro da família só consegue entrar na vida dos Park por possuir algum tipo de talento ou habilidade que serve bem à família rica. No começo do filme, é dito como Ki-woo é inteligente e sabe lecionar bem inglês. Ki-jung é boa com photoshop e consegue simular bem o papel de estudiosa de arte para ensinar o filho mais novo. Ki-taek tem experiência como motorista. Chung-sook sabe cozinhar e fazer papel de governanta. A relação que se estabelece entre as duas famílias é uma de oportunismo, mas não uma que tira tudo sem dar nada em troca. Apesar de mentirem e enganarem, a família de Ki-taek presta serviços aos Park em troca de salários reais. Eles estão empregados, mesmo que tenham conseguido esses empregos de maneiras não-ortodoxas. Eles não estão ganhando dinheiro sem fazer nada, eles precisam acordar cedo e ir trabalhar para usufruir do que seus patrões podem lhes pagar. Mesmo com todas as falsificações, as mentiras e as vigarices, eles ainda precisam se apresentar no serviço e realizá-lo, e durante quase toda a trama, a sensação que se tem é de que os Park, em nenhum momento, se sentem realmente prejudicados por essa relação. Eles são personagens ingênuos e, se soubessem da verdade, obviamente suas reações seriam diferentes, mas na vastidão de sua ignorância, eles se mostram bem confortáveis com os seus novos empregados. Assim, a relação é mais do que uma em que o oportunista tira sem fazer mal. É uma na qual o oportunista tira algo e oferece outra coisa em troca.



Essas diferenças entre as duas famílias são visíveis desde o princípio, mas a melhor representação do quão abissal é a distância entre os dois núcleos são os locais onde cada casa está construída. A casa dos Park é uma enorme mansão projetada por um renomado arquiteto e localizada no topo de uma colina onde apenas a elite vive, enquanto a família de Ki-taek vive em um local que é quase um porão de um edifício, localizado praticamente no subterrâneo e com uma janela que está exatamente no nível da rua. Por causa disso, o filme retrata o processo simbólico no qual Ki-taek e sua família sobem o morro até a casa dos seus empregadores e, ao fazerem isso, “ascendem” de certa forma.


Tendo a possibilidade de viver no topo, a casa real de Ki-taek e sua família perde espaço no filme, visto que a nova vida deles se dá na casa no topo, cheia de riquezas e de prazeres. E então, como se recriasse o mito de Ícaro, o filme força essa família a retornar para sua verdadeira casa no pior momento possível, quando a chuva torrencial praticamente inunda a casa e a deixa completamente submersa, destruindo tudo o que a família possuía de verdade e forçando-os a buscar outro abrigo. A cena é um momento forte que lembra a todos de onde eles realmente vieram e tudo o que eles têm a perder com esse golpe, como mesmo tendo empregos em uma casa luxuosa, eles ainda precisam lutar diariamente pela sua sobrevivência, de como eles não pertencem ao mundo dos Park e são apenas intrusos dentro de sua mansão.


A diferença entre as casas imposta pela altura também apresenta um outro valor simbólico. Com uma casa no alto da colina e outra abaixo do solo, o filme passa duas mensagens importantes: aqueles que estão embaixo vivem tentando atingir o topo, mas são essas pessoas que sustentam aqueles que estão em cima.


Um dos maiores triunfos de Parasita, no entanto, está em construir uma narrativa completamente desprovida de heróis ou vilões, que não assume um lado como inteiramente correto, mas que trabalha com personagens imperfeitos e todos com um lado terrível ainda por se revelar. Mesmo sendo os protagonistas, a família de Ki-taek passa longe de ser o lado defendido por nós durante o primeiro momento do filme, no qual vemos suas articulações e artimanhas e quase sentimos pena dos Park, retratados como extremamente ingênuos e bondosos. Logo depois, porém, o filme usa de diálogos inteligentes para mostrar o outro lado: a bondade e ingenuidade dos Park se dá pelo fato de eles se sentirem extremamente superiores àqueles que os servem, falando mal de Ki-taek e sua família pelas costas desses, criticando-os por coisas banais e se sentindo maiores por estarem em uma posição social privilegiada. Para eles, é fácil se livrar dos empregados antigos porque eles se sentem maiores que todos os outros, e tudo o que importa para eles são os membros da própria família e a aparência que eles têm na grande sociedade.


O filme ainda mexe mais com a nossa percepção ao incluir um terceiro ponto de vista, um que se coloca entre os dois lados e pode ser visto como um “segundo grupo de parasitas” em conflito com a família de Ki-taek. E é através do conflito entre esses três grupos que os personagens são apresentados ora como tendo razão, ora como estando errados, ora com ações repudiáveis e ora com ações justificáveis, sem nunca se firmarem como mocinhos ou bandidos e nos forçando a entender todo o quadro de acontecimentos para termos o mínimo vislumbre de porque tais ações foram realizadas.



Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e já vencedor de Melhor Filme Estrangeiro pelo Globo de Ouro, Parasita é o favorito para levar o Oscar de Filme Estrangeiro, o primeiro da Coréia do Sul, mas essa possibilidade pode ser a principal causa da falha do filme em receber o grande prêmio de Melhor Filme, visto como a Academia teima em não oferecer seu grande prêmio para longas estrangeiros, mesmo quando de fato os indica (algo que já vimos o ano passado com Roma). Mas o longa de Bong Joon-ho deve ser extremamente considerado como um dos favoritos da noite, tanto a Melhor Filme como a Melhor Roteiro Original. Melhor Diretor também seria uma possibilidade real, dado o grande trabalho realizado por Joon-ho, embora outros concorrentes, como Scorsese ou Sam Mendes, já tenham demonstrado um maior favoritismo.




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